sexta-feira, 18 de maio de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA E O ALMIRANTE FÉLIX ANTÓNIO















«A POESIA SERÔDIA DUM VELHO 

MARINHEIRO.»




Na passada semana fiquei surpreendido com o convite do Excelentíssimo Senhor Almirante Joaquim dos Santos Félix António, manifestando o desejo de que eu estivesse presente na Academia de Marinha, no dia 15 de Maio, para escutar uma palestra proferida por este académico, intitulada: A POESIA SERÔDIA DUM VELHO MARINHEIRO.





Agradecendo tão delicada atenção não poderia deixar de comparecer, já que o Sr. Almirante foi amigo do Capelão Correia da Cunha, quando desempenhou as funções de director, do Hospital da Marinha, cargo que exerceu com superior competência. O Almirante Félix António marcara presença na Celebração do Centenário do Nascimento do Padre Correia da Cunha, ocorrida em Setembro no passado ano.

O auditório da Academia de Marinha reuniu no mesmo espírito altas personalidades de tão nobres qualidades ligadas à Armada e à Medicina.

Foi para mim um imenso prazer ouvir os poemas da autoria do Sr. Almirante Félix António. Mas todos ficamos sem saber, o que mais admirar, se os poemas e sonetos, se o talento, o saber, a fineza de espírito ou a delicadeza dos seus sentimentos e a inexcedível bondade do seu coração.


Não poderia eu prever aquele belo momento aquando da singela homenagem ao capelão-poeta Correia da Cunha. O Senhor Almirante não deixou de evocar o seu antigo capelão, certamente, por este lhe ter deixado pelo seu grande espírito, algo de herança para a sua alma de poeta.

Com saudade, muito carinho e amor lhe dedicou um belo poema, lembrando que no 40º aniversário da sua morte foi lançado um livro com o título CORREIA DA CUNHA – Mestre de Vida (padre-marinheiro -poeta) da autoria do seu paroquiano João Paulo Dias ali presente no auditório.







Os poemas deste «velho marinheiro» enlevam-nos e atraem-nos, porque tudo nos parece iluminado pelos reflexos da sua bondade, pela fé nos mais altos ideais bem como naquilo que há de mais elevado e nobre. Um guerreiro contra ao grosseiro materialismo em que tantos e tantos se afundam.

Ouvi-o falar de um passado de recordações de factos e episódios de vida quer como médico «João Semana», quer como audaz marinheiro. Através dos seus versos recordava todos aqueles que lhe eram mais queridos. Falava com tanto entusiamo, tanto calor, tanta vida que parecia ver renascer o seu mais belo espírito, vigor e entusiasmo da sua mocidade.


Os poetas têm a imaginação voltada para a doçura das coisas terrenas, para o amor, para as visualidades exuberantes da natureza, para a graciosidade da mulher, para a embriaguez dos sentidos, para os deleites e desgostos da vida.

A Academia de Marinha transformou-se num santuário de poesia em que se respirou sabedoria e bom gosto, naquela atmosfera cheia de muitíssimos honrados médicos e de altas patentes da Armada, para escutarem o distinto Almirante revestido das maiores delicadezas sentimentais.

Finalizou a sessão com tal emoção e expressão que me é impossível descrever por palavras. Os olhos rasos de lágrimas quando leu um poema homenageando o seu querido filho recentemente falecido. Um poema de dor e de amor paternal.

Ao Senhor Almirante Joaquim Félix António a expressão dos meus sentimentos grato pelo honroso convite e pelo poema dedicado ao amigo PADRE CORREIA DA CUNHA.




















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terça-feira, 8 de maio de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA I












«É ESSENCIAL QUE OS JOVENS SEJAM FORMADOS NO AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO.»



Não me recordo do Padre Correia da Cunha me ter falado algum dia da sua ligação à Acção Católica Portuguesa e particularmente aos Jocistas. Certamente foi nos seus primeiros anos de sacerdócio.

Irei ao longo dos próximos meses, transcrever as muitas lições por si ministradas aos jovens trabalhadores cristãos, retiradas de um velho caderno amarelecido pelo tempo. Penso que estes escritos sejam dos anos 40 do passado século. Esta associação JOC tinha como missão a libertação dos jovens trabalhadores como verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo e a viverem o Amor a Deus e à Igreja.

Neste primeiro texto e nas palavras do assistente eclesiástico: Os jocistas eram verdadeiros militantes moldados pelos ensinamentos da Igreja e pelos princípios da sua hierarquia.

Não se podia encarar de ânimo leve esta sua tarefa sacerdotal. Esta missão implicava uma completa interiorização e uma fervorosa vida espiritual. Tratando-se de uma população jovem, futuro da Igreja e continuidade da sua obra da Igreja. Através destes escritos fica bem claro que se propõe educar a juventude no Amor a Deus através de uma forte militância e vigilante valorização pessoal que permitisse mais tarde a estes cristãos cumprirem em plenitude as suas missões no seio da comunidade paroquial.





O assistente da Acção Católica, particularmente no movimento Jocista.

Primeira pergunta: Importância capital do papel do assistente nas obras da Acção Católica.
- A grande importância a vital importância do papel do assistente nas obras da Acção Católica, e não nos fora inoculada pela própria natureza e gravidade do assunto, ter-nos-ia sido suficientemente declarada pelas palavras que como lema duma revista: «Assistente Eclesiástico», o Santo Padre Pio XI pelo seu próprio punho escreveu: A Acção Católica é o que for cada um dos seus assistentes na parte que lhe seja confiada: In manibus tuis sortes  mea.

Assim é, o assistente leva em suas mãos a sorte presente e todo o futuro da Acção Católica. Não nos iludamos a este respeito. Se a Acção Católica se desenvolve e próspera, numa palavra se a Acção Católica vive é principalmente e quase unicamente devido ao assistente eclesiástico.



Na verdade, do assistente dependem os militantes que realizarão o apostolado laical que é uma tarefa, e por meio dos militantes depende ainda do assistente a eterna salvação daqueles que esperam no apostolado a actuação da acção dos militantes formados, guiados, e animados pelo assistente. Que grande responsabilidade não é a do assistente… In manibus…







Na Acção Católica o sacerdote não é senão o assistente. Não é presidente, nem tesoureiro, nem maquinista; é pura e simplesmente o assistente ou para empregar as palavras do Papa ao Episcopado colombiano: a alma das associações, fonte de energia, animador do apostolado: representante da autoridade. Deixando aos leigos a direcção e a responsabilidade das associações, deve porém garantir a fiel e constante aplicação dos princípios e directivas estabelecidas pela hierarquia da Igreja. O seu papel é portanto imponderável, insubstituível.

Pertence ao assistente eclesiástico procurar com recato escolher com prudência formar e instruir os apóstolos leigos do meio do trabalho. Por outro lado é grande dever dos prelados escolher esses educadores de todos o que hão-de colaborar com a hierarquia para esses sacerdotes formarem os futuros apóstolos de todas a classes sociais já que a Acção Católica deve ser especializada.


Por mais brilhantes que sejam as qualidades naturais de um sacerdote não bastam: É pois necessário sobrenaturalizá-las no amor do Coração de Jesus. A educação espiritual do Padre deve surgir as qualidades de instruir que lhe faltam, ou aperfeiçoar as que tem. Os encargos da formação dos militantes jovens urge o convencimento a propósito de tudo orai nas horas fixadas. Nas reuniões trata-se de desenvolver a vida sobrenatural de modo a conseguir que a acção cristã junto dos companheiros seja uma exigência da própria personalidade cimentando num contentamento mais perfeito de Deus pela fé e pela caridade.











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segunda-feira, 2 de abril de 2018

IN MEMORIAM PADRE CORREIA DA CUNHA ( 41º ANIVERSÁRIO)








Foto de José Luís Coelho


IN MEMORIAM 

PADRE CORREIA DA CUNHA 

2 ABRIL 1977-2 ABRIL 2018 

41º ANIVERSÁRIO




«ONDE HÁ CARIDADE … HABITA DEUS.»




Foi uma grande e enorme alegria assistir à Comemoração do Centenário do Nascimento do Padre Correia da Cunha, ocorrida no dia 24 de Setembro do passado ano. Com a amável aquiescência do Senhor Dr. Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi fixada uma lápide no Campo de Santa Clara, assinalando o homem que nasceu nesta cidade e por ela foi apaixonado até à morte. 

Foto José Luís Coelho



Soube a Vereação da Cultura do Município cumprir o dever nesta singela e modesta acção de recordar a memória deste ilustre sacerdote que deixou testemunhos literários de superior qualidade acerca de Lisboa, que são verdadeiras cartas de amor à sua urbe. Pagou-se assim, uma dívida de gratidão a um filho ilustre que tanto amor e estudo lhe dedicou. 



Um modesto monumento comemorativo no Páteo de São Vicente de Fora – entrada do Patriarcado – foi a justa e agradecida homenagem dos seus amigos e admiradores. 


O Padre Correia da Cunha é um símbolo! Símbolo de fé, de bondade, de caracter e de inteligência, de todas as boas qualidades que podem tornar um homem recordado aos olhos daqueles que cumpriram este dever de gratidão, fazendo-lhe a justiça de lhe perpetuarem a memória. 


Ele viverá para todo o sempre nesta Lisboa dos seus amores e na Paróquia a que a sua alma tanto queria. 

Recebeu a justa e merecida homenagem por tudo o que fez pela sua amada cidade de Lisboa, pela Armada Portuguesa, pela Paróquia de São Vicente de Fora e pelas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento. Foi uma imensa felicidade para todos aqueles que puderam estar presentes nessa grandiosa efeméride. 

Hoje recordamos aquele dia 2 de Abril de 1977 de há 41 anos, em que o Padre Correia da Cunha nos deixou fisicamente, mas continua presente através dos ensinamentos que nos deixou. 

Creio que devemos aproveitar este dia para publicarmos uma conferência por si proferida, a pedido do Reverendíssimo Monsenhor Pereira dos Reis, no mês de Julho do ano de 1949, no Seminário Maior de Cristo Rei, a sua predilecta casa, onde deu sempre os seus abnegados esforços a favor da formação espiritual dos clérigos, que à sua semelhança, se dedicariam de corpo e alma ao serviço das comunidades cristãs da diocese de Lisboa. 

Conferência eclesiástica intitulada sobre: “A Caridade de cada um para consigo – noção, divisão, fundamento natural e teológico» 

Veremos nestes textos a pluralidade de opiniões, conceitos, reflexões e influência que este jovem sacerdote tinha da vida e dos destinos de tantas criaturas. 

Tanto absorveu ao longo da sua vida «titânica», que passado 41 anos da sua morte, ainda somos beneficiários dos seus dotes extraordinários. 

É um documento que constitui um memorial, que ficará registado neste blogue para ajudar a acordar muitos a reconhecerem a força do espírito sobre a matéria e todos os fenómenos que se processam na obediência às leis naturais e divinas. 

É este grande clérigo que hoje queremos homenagear. Era uma figura perspicaz e profundamente conhecedora do género humano, impetuoso e de uma fulgurante energia que teremos de pesquisar e estudar minuciosamente pelas suas potencialidades como poderemos verificar através destes brilhantes textos. 

Mas para além da sua obra monumental é sem dúvida o rastro luminoso que ainda hoje é digno de admiração por parte de todos os que tiveram a felicidade de o conhecer. 

Sabia ser amigo dos seus amigos e tinha-os em todas as camadas sociais, tratando-os em primeiro lugar como seus semelhantes. 

Ao publicar as suas fotos de seminarista, nesta homenagem, mais não faço do que tentar expressar o grande sentimento que o Padre Correia da Cunha tinha de apreço pelo seu seminário e pelo seu grande Mestre Monsenhor Pereira dos Reis. 

Foi também para todos nós uma gratíssima honra tê-lo tido como Mestre de Vida, companheiro e amigo. 

Termino deixando transcritas as palavras dessa belíssima conferência, que espero nos sirva de guia para a verdadeira Caridade que foi sempre o lema do Padre Correia da Cunha.



AD PERPETUAM


Conferência Eclesiástica


Se Vossa Excelência Reverendíssima me dá licença, farei antes de mais nada uma confissão pública… Quando recebi a ordem para ser o relator desta conferência, esfreguei as mãos de contente, como qualquer estudante fraco que é chamado à pedra a dar contas de uma lição muito fácil. Cheguei mesmo a dizer cá com os meus botões: «Agora é que eu vou fazer figura!». 

Nem me passou pela cabeça que o ponto era mais difícil do que eu supunha. 

À primeira leitura, julguei suficiente consultar os meus amigos, Janicot, Prumer,Hieronymus Noldin.... E era caso arrumado. Bastaria espremer bem o fruto que deles tirasse, misturando-lhe um pouco de imaginação e oferecer aos meus prezados colegas no sacerdócio de Cristo uma espécie de refresco. 



A assim, folhei, folhei, folhei… e com tantas folhas aquilo não podia ser refresco, mas antes o cansado chá. Insipido e muito bochechado. 



Ora não estava certo que eu viesse oferecer a Vossas Excelências o chá do Nicolau Tolentino, nesta tarde tão encharcada de calor, e propus-me arranjar um refresco, qualquer coisa que trouxesse uma aragem fresca, lavada e sadia às ideias. 


E começou então o cabo dos trabalhos. 

Pus-me a ler tudo o que parecia poder auxiliar-me. Deitei abaixo prateleiras de livros. Perdi algumas noites. Vieram solenes teólogos, pacíficos moralistas, fúteis literatos e sonhadores poetas. Li, reli e cheguei a tresler. E no fim, nada ou quase nada me enchia as medidas. A receita não vinha em nenhum deles, a não ser umas breves e escassíssimas indicações, principalmente (até parece estranho) nos poetas como Handel e São João da Cruz! 

E foram essas brevíssimas indicações que me levaram à fonte de águas vivas. Porque ao lê-los me veio esta ideia salvadora: Eu tenho de falar de doutrina cristã… se eu fosse consultar o Evangelho e a pregação dos Apóstolos? 

E assim, tentei resolver as dificuldades. A Sagrada Escritura sobre a mesa de trabalho; papel, tinta e toca a escrever. Não cuidem, porém, V. Reverendíssimas que me dei por satisfeito com os resultados. Não. Escrevi, pelo menos cinco conferências. E mesmo assim… V. irão julgar… Por isso peço que me relevem as deficiências de expressão, corrijam as possíveis inexactidões ou mesmo erros, e, sobretudo, que não levem à conta da originalidade pretensiosa o meu pobre trabalho, este refresco que lhes ofereço e que não será delicioso não, não é mas foi preparado com sincera boa vontade. 

E passo a expor: 

Diz o folheto: 
– Parte oral – Da caridade de cada um para consigo 
Natureza: Noção, divisão, fundamento natural e teológico. 

E o que mais dele consta. 

Ao começar permitam-me Vossa Reverencias lembrar as palavras com que o saudosíssimo Cónego Pontes concluía o seu 1º artigo sobre o pronome nós. 

«Ensina-se no púlpito e nos exercícios espirituais mesmo nos destinados ao clero, pouca doutrina. Há talvez juridicíssimo de mais, e espiritualidade viva de menos, abundância de técnica e pobreza de mística, raciocínios miúdos e ausência de razões profundas. 
Despende-se actividade e tempo precioso no secundário e no pormenor, e omite-se ou não se poe em relevo o primordial - as grandes teses católicas, as verdades e sínteses de doutrina fecundadoras da consciência, cheias de dinamismos para o apostolado.» 

E a respeito do nosso tema, creio que estas palavras do Sr. Cónego Pontes são de uma actualidade flagrante.



É que mesmo na maneira de pôr o assunto há, a meu ver, demasiado juridicíssimo humano quando ele é de facto e de direito, divino. E até no esquema traçado se revela logo numa concepção inversa das realidades teologais, encarando-as não há luz das conveniências de Deus, mas às conveniências humanas. 

O juridicíssimo infiltrou-se de tal maneira na moral- casuística que parece ter havido mais a preocupação de indicar aos cristãos as malhas na alçada da justiça divina. Do que a beleza excelsa e transformadora do simples cumprimento dessa lei, precisamente ao contrário do que se dizia o salmista: Beati immaculati in via que ambulante in lege Domini.Beati qui scrutantur testimonia ejus; vide quandus mandata tua dilexi,vide quandes mandata tua dilexi, Domine, in misericordia tua vivifa me. Pax multa diligentibus legem tuam, expectaban salutarem tuum, Domine et mandata tua dilexi: funes peccatorum circumplexi sunt me et legem tuam non sum oblitus. 

Todo esse salmo 118 

(Deus é bom, sua benignidade dura para sempre. Devemos louvar o Senhor porque Ele é bondoso com todos nós.)

que nós temos rezado agora diariamente nas horas menores. Foi este juridicíssimo que inventou o adágio que diz: a caridade bem ordenada começa por nós mesmos… Para não cairmos, pois, neste juridicíssimo estéril, mas infelizmente tão usado, estudemos o assunto sob a luz claríssima da Palavra de Deus. 

Noção da caridade de cada um para consigo. Por outras palavras e objectivando o tema: O que é a caridade de mim para comigo? 

A meu ver, esta pergunta só pode ter duas respostas: ou é, segundo o sentido comum da palavra caridade, amor-próprio, o amor de mim a mim; ou não é nada. 

Em qualquer das hipóteses, nunca poderá ser virtude e muito menos teologal, que costuma definir-se como uma qualidade divina infundida em nós num hábito.




Há aqui, portanto um equívoco, eu creio que não pode haver caridade de mim para comigo, pela simples análise dos termos. A proposição de indica origem e a proposição para indica termo; se a caridade é virtude teologal eu não posso ser o seu princípio e o termo. É evidente eu não posso ser sujeito e objecto da caridade. 



Como deve então entender-se o termo Caridade? O que é a Caridade?



Na acepção mais comum significa amor. Mas sê-lo há cada um para consigo é simplesmente amor-próprio.



Dirão agora os moralistas: Sim, é amor-próprio mas devidamente ordenado. Ao que eu repondo que segundo o Evangelho antes me parece que a Caridade de cada um para consigo deve ser ódio, renúncia de si mesmo. E então a Caridade de cada um para consigo já se não deve regular pelas nossas conveniências ou interesses, mas pelas conveniências e interesses de Deus.



Entremos, porém, no âmago da questão, definindo os termos:



O que é a Caridade? Não me parece que a Caridade seja simplesmente amor definido pela filosofia como nos motiva, é qualquer coisa de mais profundo e sublime.


Falta a esta definição dada comummente a essencial diferença específica: vis unitiva Dei – É que na Caridade há um elemento essencial que a distingue do amor, é o facto de ser de Deus, e o amor é qualquer coisa de humano. Com efeito, a palavra Caridade só aparece no mundo com o Cristianismo, é a novitas florido mundi! Perguntemos, pois, à Doutrina o que é a Caridade. Responder-nos – à São João Iª IV 9 Deus caritas est: Caridade é Deus, e poe em equivalência dois termos um dos quais é indefinível: Deus (pois definir é marcar limite) e por consequência caridade não se pode definir, mas simplesmente intuir. É o que tentaremos fazer.

Se caridade é Deus, não pode ser nada de criado, mesmo humano por muito grande que seja. É, porém, o caminho para chegarmos a Deus à causa primeira, a consideração das perfeições das suas criaturas, e o que há de maior no homem feito à sua imagem e semelhança é o amor – mas precisamente porque é humano não pode ser mais do que uma imagem e semelhança uma alusão do que se passa em Deus; é do domínio da filosofia, só pode, por isso, ser um auxiliar da teologia. Aproveitemo-lo pois, nestas condições e para podermos penetrar no verdadeiro amor de Deus: a Caridade.



O amor é um nós o que há de mais profundo na pessoa é o centro do ser e o seu valor supremo. É uma passividade e uma actividade; enquanto exige que um outro entre um nós e venha despertar numa relação afectiva. «O ser amado age como o alimento que vem saciar um faminto, como beleza quer apaziguar um desejo, como a plenitude que vem cumular sem apelo: o amor é sempre filtro da riqueza e da pobreza.» Supõe, pois, numa presença que enriquece e transfigura mas só na medida em que o amante se lhe dá ao amado afectivamente e efectivamente de sorte que os dois sejam um. Assim temos que o amor consiste num movimento espontâneo do amante para o amado, mas recebido e comunicado por este. E assim temos a prova da nossa miséria de criaturas incapazes de nos bastarmos a nós próprios, até naquilo que temos de mais profundo essencial ao nosso eu.

A presença do amado em nós, que é um dom, desperta em nós um movimento de reciprocidade, de sorte que sendo uma posse é também um desejo, sendo um repouso é também movimento, sendo presença é também ausência, porque nos faz ir sempre em busca, sempre além é sempre uma força mítrida une e impele.

À luz desta doutrina vemos que o amor é sempre um movimento de transcendência despertado por um dom total de imanência, quero dizer é um querer ser além, motivado pelo dom inteiro de outrem que permanece em nós, como presença activante.

Aplicando estes conhecimentos da psicologia do amor em Deus e de Deus, já entrever com ajuda da revelação, é claro, o mistério mais profundo do ser divino.

Deus é caridade – E Deus é Pai, é Filho, é Espirito Santo.
Um só Deus em três pessoas realmente distintas em virtude das relações do amor que nelas realiza a Trindade de pessoas na unidade de um só ser.

O Pai gera o Filho desde toda a eternidade e de tal maneira se lhe comunica, se lhe dá numa transcendência infinita da sua mesma imanência, que o Filho é em tudo igual ao Pai, mas este dom total verdadeiramente total do Pai ao Filho suscita como divina reacção que de ambos procede, o Espírito Santo que recebe e transmite no seio da Trindade Santíssima tudo o que é o Pai e o Filho - sendo por isso absolutamente igual, infinito, imenso, omnipotente omnisciente - tão Deus como o Pai e o Filho.

Por outras palavras: a imanência do Pai realiza-se na transcendia em que, por assim dizer, se desdobra e duplica no Filho, fechando ambos o ciclo desta transcendência no Espírito Divino, de modo que Deus, sendo a imanência absoluta é também a transcendência total. Sendo um só, vive e é Trindade de Pessoas.

Deus exprime-se no Verbo e retorna-se no Espírito, e tendo nesta plenitude exala, floresce da essência mesma de Deus que é Caridade. Podemos até dizer que a Caridade é, no fundo, constitutivo essencial de Deus, a motiva infinitivamente que realiza a unidade de Deus originando e distinguindo a Trindade das Pessoas.

A palavra Caridade é, portanto o sinal humano, da tradução verbal entre homens do vocábulo Deus que só o próprio Verbo de Deus traduz com propriedade e realidade no seu infinito sentido. Só o Verbo eterno é a expressão adequada da Caridade. Por isso, só chegamos ao conhecimento dela quando o Verbo se fez carne, como adiante veremos.
Mas ante da Palavra de Deus encarnar, ressoa no timbre de uma voz humana, já antes se fizera ouvir como num eco, humana,  fora de Deus, na solidão e vazio do nada. O nada que é não existência (para mais paradoxal que pareça) era o preciso vácuo onde poderia ecoar o verbo por quem tudo foi feito. Foi a essa Palavra infinitivamente livre e generosa que surgiram todas as criaturas. As estrelas responderam: Presente!

E o Espírito de Deus transbordante de alegria pairou por sobre as águas –ludens orbe terrarum -. A criação sendo uma obra ad utra, é assim sinal, o testemunho da existência e da presença do grande artista, tal como a obra d’arte, fala constantemente do seu autor – Tal é o profundo sentido da palavra do salmista: Caeli emar raret glorium Dei – e da tese de São Paulo na epístola aos Romanos: Per visibilia quae facta sunt ad Deum. A criação é por consequência uma indicação deslumbrante, maravilhosa da Caridade vida íntima de Deus e as criaturas esplendentes sombras do Ser que só existem como sombras, sinais da claridade.

Segundo o que me veio à cabeça, o mundo apareceu à chamada do Verbo, como um grande filme de desenhos animados, filme maravilhoso cujo intérprete era um actor principal, espécie de boneco também mas consciente, ou como nos contos de fada, uma espécie de feiticeiro cuja característica era uma tal varinha de condão chamada enfatuadamente liberdade.

Com essa varinha mágica na mão ele podia privar com o autor do filme e oferecer-lhe o espectáculo de beleza surpreendente executado por todas as criaturas às suas ordens, ou então precipitar –se e precipitar consigo todos os personagens num autêntico abismo. Por isso quando esse mágico surgiu das mãos que lhe dera como característica constitutiva do seu ser, nem nunca lhe quis tirar para que um mágico não deixasse de ser o que era : Homem.

Enquanto esse feiticeiro e a fada que lhe foi dada por companheira usavam bem a varinha mágica, tudo correu às mil maravilhas. Deu nome a tudo, gozam de tudo e deliciam-se com a inefável intimidade do realizador do filme que lhe dava a subida honra e mesmo prazer de vir estar com eles pela fresquinha da tarde.

Mas um dia, lembraram-se de ir contra as indicações do realizador, usaram mal da varinha e todo o cosmo se transformou num caos onde o feiticeiro caiu arrastando na sua queda tudo. Mas no meio daquelas trevas abismais acendeu-se de novo uma luz, ouviu-se de novo a palavra de Deus da Caridade: Inimicitias ponam inter te mudierem ipsum inter et caputtum.

Esta luz foi-se intensificando, aquela palavra foi-se confirmando cada vez mais, até que um dia surgiu em todo o esplendor (et lux in tenebris lucet) e de esperança que era transpareceu em Caridade et verbum caro factum est ou com diz São Paulo: Multifariam,muitique modis olim Deus Patribus in Prophetis, novisime vero locutus et nobis Filio suo – splendor glorie et figura substantial ejus. At quando venit plenuitude temponis. 







De sorte que Deus – Realizador e Autor do filme, para salvar a sua produção e mais que salvar, para fazer uma emenda muito superior ao soneto (mirabilier condidisti et mirabilius reformasti) travestiu-se de feiticeiro que digo eu? – Fez-se feiticeiro e sendo autor quis ser actor.



E agora se compreende melhor a explicação de Caridade que nos dá o discípulo amado I IV-9 e seguintes: Deus caritas est. In hoc appamit caritas Dei in nobis, quoriam Filium suum misit Deus in mundum set vivamus per uum.



Por outras palavras: Deus que é Caridade enviou-se a Si mesmo na pessoa do Verbo pela acção do seu Espírito, pois nós sabemos que Spiritus Sanctus cooperiet te ex virtus altissimi Imu tibi e ainda: quod enim in natum est de Spiritus Sanctus est.

Assim é que a obra da Redenção é obra da Trindade personificada no Verbo. É obra do Amor Divino, da Caridade. Por isso só desde a Incarnação do Verbo se conhece e sabe o que é a Caridade no seu total significado, porque só então foi expressa em linguagem vulgar, acessível aos homens. Só desde então historicamente ou desde sempre na economia divina. Segundo a opinião tão grandiosa e bela de Domus Pacto, a Caridade que é a palavra divina teve adequada e total tradução humana: N.S.J.C – A Caridade é Cristo – Deus feito homem. 

E por conseguinte, a Caridade não pode ser de mim para comigo.

A Caridade sendo Cristo, pode e deve viver em mim e eu viver por ela: In hoc appamit caritas Dei in nobis…et vivamus per uum. Veio a mim, mas não vai de mim, nem vai para mim, por quanto sendo Cristo só pode ir para o Pai sob acção do Espírito Santo (De spiritu XEUS in Patre) – Caritas Dei difusa est in nobis per Spiritum Sanctus qui datres est nobis.

Disse eu que a Caridade sendo Cristo, pode e deve viver em mim e eu por ela – Mas aí, não é forçada – é um dever moral que posso infelizmente deixar de cumprir. E aqui está a tragédia do Homem e do Cristão. – Deste porque pode usar mal da varinha mágica e deixar de possuir, daquela porque por igual processo a pode não aceitar.

No caso de ser cristão: que devo eu fazer para a viver? Corresponder como? 

- Decidindo-me a lutar e a morrer a dar tudo, mais abertamente tudo e dar-me inteiramente, de sorte que não deixando de ser eu seja diferente de mim, viva em mim alguém que no dizer de Claudel, seja plus moi même que moi, numa feliz tradução das expressões de São Paulo: Vivo, iam non ego vivit vero in me Christus.

A Caridade é assim praticamente a realização do mistério de Deus em nós. É a santidade.

Se a Caridade é o Amor em Deus e de Deus de que resulta uma unidade na Trindade, se é aquele movimento de transcendência perfeita em que Deus se dá totalmente a Si mesmo na triplicidade de pessoas que formam um só Deus, se a Caridade é o movimento de Amor do Verbo, pelo qual ele assumiu a natureza humana e se deu ao Pai realizando a sua vida no Amor, se a Caridade é fundamentalmente esse dom divino que leva às pessoas divinas a darem-se para se encontrarem. Se é isto então comunicada aos Homens deve ser o dom do próprio Cristo que suscita nelas uma doação completa para se encontrarem transfiguradas, divinizadas, realizando assim o conformer filli imajini Filii Dei, consortes divinae natural, ontem recepermut e um dedix eis postatem Filii Dei fieis FiliiDei nominemus et sumus.

Assim como Deus na sua vida trinitária, se dá todo, infinitamente todo ao Filho para se encontrar no Espírito Santo, assim nós também vivendo na Caridade humanada na pessoa de Cristo temos de nos integrar nele e por ele e com ele darmos ao Pai sob a acção do ministro, para nos encontrarmos transfigurados em Deus.

As coisas divinas por mais que façamos nunca se definem, comparam-se quando muito. Por isso Cristo falou em parábolas e a liturgia também ensina tanto pelos gestos e atitudes como pela palavra: Aquela gota d’agua que lançamos no cálix da missa é a mais eloquente que toda a minha exposição. Não deixando de ser gota d’água mistura-se de tal maneira no vinho que não é fácil distingui-la. É consagrada também e sobe assim transfigurada ao seio do próprio Deus. A gota d’agua porque se deu inteiramente vai assim brilhar no diadema do próprio Deus.

Para vivermos a Caridade é preciso portanto corresponder ao dom total de Deus em nós, dando também num movimento tudo inclusive nós próprios. É o abneget semetipsum… é o qui vult perder animam suam para nos encontrarmos deiformizados – inveniet eam.

Em primeiro lugar darmos o que temos e depois darmo-nos a nós próprios, fazendo o vazio absoluto para nele caber o infinito da presença de Deus que é Caridade. Aqui está razão profunda porque o mistério da Caridade é um sacrifício místico. Privar-se de tudo que afinal é simples aparência, sombra – tanquam specula in enigmata - para se realizar plenamente no tudo realidade que é Deus e assim fecharmos o ciclo da plenitude.

Temos de nos privarmos das formas transitórias imperfeitas, inclusive da nossa – não há maior prova de amor que dar a vida – para a encontrarmos depois deificada. Por isso, neste mundo, a Caridade baseia-se na fé e resplandece na esperança – 3 irmãs gémeas que, à entrada na eternidade se fundem numa só luz: tune antem faci ad faciem in lumine tue viderimus lumen.

Esta doutrina da Caridade é a que foi pregada por Cristo e pelos apóstolos e pelos santos – quer pela palavra, quer pelo exemplo.

Se abrirmos os Evangelhos, encontraremos frases como estas que talvez não soem muito bem aos juridicistas da moral: 

- Eu não vim trazer a paz, mas a espada.

Se alguém quer vir após mim, renuncie-se a si mesmo.

Quem não deixar seu pai e sua mãe e irmão e tudo por amor de mim, não é digno de mim.

Se o teu olho te escandaliza

Se o teu pé te escandaliza

Para quê multiplicar as citações? Todo aquele divino sermão da montanha que é senão o mote de ordem cujo cumprimento é indispensável para que se possa viver pela Caridade que veio a nós no Baptismo.

Afinal toda a doutrina do Evangelho outra coisa não é mais que a promulgação deste preceito – esto perfecti sicut Pater vester – e a perfeição do Pai está a dar-se ao Filho e a ambos em viverem no Espirito Santo dando-se totalmente. A Caridade em nós é portanto no que de nós depende uma doação na esperança que é a certeza de nos encontrarmos realizados em Deus.

A doutrina dos apóstolos é idêntica - Basta citar aquela palavra de São Paulo aos Efésios: Imitators Dei esto sicut carisssimi, et ambulate in dilectione sicut et Xeus dilecit nos et tradidit semetipsum pro nobis oblationem et hostiam Deo im odorem suavitates – E aquele sublime poema da outra sua epistola aos Coríntios: Si linguis hominum loquar, et angelorum, caritatem autem non habeam, factus sum velut æs sonans, aut cymbalum tinniens.

Et si habuero prophetiam, et noverim mysteria omnia, et omnem scientiam: et si habuero omnem fidem ita ut montes transferam, caritatem autem non habuero, nihil sum. Porque a Caridade praticamente é dar-se em paciência, benignidade, humildade… e por isso não pode ser ambiciosa nem avara nem egoísta – parece quase que São Paulo diz: não pode ser cada um para consigo…

Em São João já a vimos tão belamente expressa.

E de São Pedro não se pode entender de outro modo estas palavras da sua 1ª Epistola Cap. II - deponentes igitur omnem malitiam, omnem dolum, simulationes, inuidias omnes detractiones; sicut modo geniti infantes, rationabile sine dolo ac concupiscite, ut eo crescatis in salutem, si tamen gustates guoniam dulcis est Dominus - e mais adiante: vers. 21 – in hoc enim vocati estes suria et xeus passus est suo nobis vobis aelingenes exemlum, ut seguamini vestigia ejus. 

A doutrina dos Santos baseada na de Cristo e dos Apóstolos como poderia ser diferente. Basta ler Santo Agostinho, São Tomas e sobretudo São João da Cruz, que tão bem fala da maneira de subir o Monte de Carmelo – especialmente naquele capítulo VII do livro segundo em que comenta as palavras de frases: et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam. No ergo est paeordinatus a Deo numerus salvandorum. et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam. No ergo est paeordinatus a Deo numerus salvandorum. et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam. 

Basta ler e entender a História de uma alma para se ver que por muito diferente que seja o ponto de partida – toda a santidade se encontra neste ponto: viver pela Caridade infundida em nós pelo Espirito Santo que nos foi dado de sorte que se realize em nós plenamente Cristo. Mas para isso é preciso darmo-nos, corresponder com a doação completa do nosso eu.

Se contemplarmos agora a vida da Caridade Humanada do Verbo quer misticamente nos Santos chegaremos a igual conclusão: Que foi a vida de Cristo e a dos Santos senão um esinamivit para se transuma num exaltavit illum. 

A Caridade é portanto entraparmo-nos cheios de fé com a esperança certa de nos transfiguramos. É morrer para ressuscitar; É a Pascoa no sentido de passagem libertadora à terra prometida deixando todos os Egiptos de escravidão.

À a morte de nós mesmos em nós para encontrarmos a vida de Deus. Nisi granum frumenti cadens in terram mortum fuerit, ipsum solum manet si autem mortuum fuerit, multum fructum affert . Esta palavra do pão de trigo traz-me à ideia a parábola do semeador, que saiu a semear… e uma parte da semente caiu em terra boa e enraizou-se e voltou e cresceu e deu flor e fruto – Mas não nos esqueçamos da explicação: sémen est Verbum Dei – O Verbo de Deus é Deus – et Deus erat Verbum – e Deus é Caridade.

Tal é o mais profundo sentido da parábola. Afinal a Caridade para nós é o Verbo de Deus lançado à terra no nosso coração – a fim de florir de nós para Deus e em Deus. Por consequência a Caridade não pode ser de cada um para consigo – mas de Deus e para Deus através de cada um que procura ser bom terreno. No entanto ninguém ama o terreno senão porque se pode e deve transfigurar na flor e nos frutos. Por isso o que é preciso é ser-se como diz o salmista: autêntico e bom esterco pela humildade para se poder ser assimilado pela semente, para se ser digno da união intima e vital à semente que nos veio do alto. Ou por outra comparação tão querida da liturgia inspirada no Evangelho: A vela acesa.
A vela acesa é o Círio Pascal-símbolo de Cristo. Esta vela acesa pelo Espirito de Deus – Fons vivres panis caritas é nos dada quando acabamos de entrar na verdadeira vida (na vida Trinitária da Caridade) da qual esta vida física temporal sobre a terra é simplesmente um símbolo – é a passagem para o outro lado da vida (como disse o Sr. Cónego Pontes) de novo a empunhamos – Que lindo e grandioso este simbolismo! A vela acesa é Cristo a arder em nós (Fac,ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam) na abama da sua vida Trinitária – o que é necessário é sermos cera que se consome em Luz. Ah! L’important n’est pas de vive mais de mourir et d’etre consome – Claudel.

E ninguém ama a cera por ser cera mas porque é capaz de se transfigurar em luz diante do altar.

Ainda noutra parábola: O reino dos céus é semelhante à pérola preciosa – aquele que a encontra, vai, vende tudo, desfaz-se de tudo para a adquiria-la. Essa pérola só tem valor enquanto tem vida e oriente, e não por ser uma especial de calcária formada nas conchas do mar. Vida e oriente… Vida movimento intrínseco que nos foi dado – dom portanto que recebemos só alto por Cristo que é a Caridade e que se orienta para o alto pelo mesmo Cristo que nos absorve – que se impregna no pobre calcário e lhe dá essas cintilações divinas de uma claridade diáfana – Oriente – orientação – voltando para o PAI (tudo isto sempre sob o influxo do Espirito é claro).

Mas para realizar esta adaptação esta capacidade de correspondência - o preço é caro (vendet omnia) - deixar tudo, toda a pedraria falsa que é falsa. E tudo é falso porque tudo é só unicamente imagem, semelhança daquela jóia – até a pessoa humana, que foi criada à sua imagem e semelhança, também ela é falsa. Decerto que a verdadeira caridade não pode estar em nos amarmos a nós próprios mas a Deus em nós e fora de nós.

Resumindo esta parte das parábolas:

A Caridade de cada um para consigo, separado o verdadeiro conceito dos termos não pode existir mas se com isso queremos indicar a atitude de cada um para consigo, pode regulamentar-se assim:

Trabalhar por que o terreno esteja apto para se integrar na semente, com ela viver, crescer e desabrochar em flor e fruto – Mas para Santo urge arroteá-lo, lavrá-lo, mondá-lo e adubá-lo!

Trabalhar por que a cera seja boa, de fácil combustão, para poder consumir-se em luz.



Trabalhar por que o calcário ou barro possa transfigurar-se em pérola viva orientada de Deus e para Deus. E chegaremos a este paradoxo:


A Caridade de cada um para consigo é não ter Caridade para consigo, no sentido de não ter amor a si próprio, é um transcender-se noutro deixando de ser o que é par ser Cristo – “Vivo autemiam non ego, vivit vero in me Christus. Invertendo o sentido e os termos ao adágio popular, a Caridade bem ordenada não começa connosco – mas acaba connosco.



Realizar este paradoxo é o drama de toda a vida cristã drama que só se transforma em apoteose na vida mística depois de todas as asceses – depois de todas as mortes e de todas as noites quer dos sentidos quer da alma.

Se nos não bastassem os exemplos e a doutrina de Cristo ou se por ser Deus – o considerássemos demasiadamente alto – tínhamo-lo mais acessível na doutrina e vida dos Santos. Não esqueçamos que o culto dos nossos Santos tem esta primária finalidade e muito especialmente em São Francisco de Assis que nesta ciência da Caridade foi mestre sem grandes metafísicas, mas praticamente. Foi ele quem soube deixar tudo até a túnica que o vestia, pois só o nu pode entrar nos conselhos do Amor, até o seu eu, para assim abrir o vazio necessário à plenitude de Cristo aponto de o Senhor lhe imprimir os estigmas; e abandonando tudo encontrou o Tudo em Deus. Nada tendo possuiu todas as coisas inclusive a comunhão que é uma posse espiritual, com as criaturas de Deus. Louvado sejas tu Senhor meu Deus, pelo nosso irmão Sol, pela nossa irmã madre terra…



Seguiu à letra o Evangelho. Não deu muito, deu tudo. Como mais tarde o grande aviador francês Georges Guynemer havia de dizer ao pai a respeito do amor da pátria: Tant qu'on n'a pas tout donné, on n'a rien donné 



O Postulo dando-se inteiramente realizou o vazio necessário par nele caber a Caridade, bem à vontade e esse vazio tinha de ser absoluto para lá caber o infinito.


À luz deste exemplo tão frisante vemos mais uma vez que não pode haver Caridade de cada um para consigo, no sentido em que geralmente os tais juridicistas falam, quando procuram encontrar uma saída, como se esta lei tivesse malhas, para o nosso egoísmo que no fundo é revolta e orgulho. Não poderá nunca ser Caridade, porque a Caridade é só uma: Deus – em si mesmo e em nós e no próximo. E no que diz respeito, à semelhança do que se passa em Deus, na Trindade, na obra da criação e no momento da redenção desde a incarnação até à ascensão – Caridade é, no que nos diz respeito uma correspondência ao amor de Deus um sair de nós: Transcendência – um darmo-nos: Sacrifício – uma morte de nós para nos realizarmos em Deus, pela ressurreição e ascensão: Um mistério Pascal.

É por este divino dom da Caridade que Dieu, disse Pascal, Le Dieu des chrétiens est un Dieu qui fait sentir à l'âme qu'il est son unique bien ; que tout son reposest en lui, qu'elle n'aura de joie qu'à l'aimer ; et qui lui fait en même temps abhorrer les obstacles quila retiennent et l'empêchent d'aimer Dieu de toutes ses forces. L'amour propre et la concupiscence, quil'arrêtent, ... glosando assim a palavra de Santo Agostinho: inquietrum et cor nostrum.

Voltando ao tema com outra variação: Há oposição de termos quando se fala de Caridade de cada um para consigo – porque ninguém ama o terreno por ser lama mas pela semente que há-de ser flor e fruto – nem ama a tela por ser serapilheira mas pela pintura que nela executou o artista – nem a pedra por ser massa bruta dura disforme mas pela imagens do Santo que nela alguém esculpiu; nem ama a jóia por ser pedra mas pelos revérberos de luz que nela o sol encerrou; nem o violino por ser caixa de madeira e cordas de tripa, mas pelas melodias que nele se executam; numa palavra: ninguém ama a matéria em que vive numa obra de arte – mas a arte que vive nessa matéria – arte que supõe (é claro) inspiração e inspiração – vem do espírito.

A Caridade verdadeira, autêntica, é essa arte – Cristo – realizada em nós sob a inspiração do Sr. Divino para glória do Pai. E a Caridade perfeita será a total inspiração do eu em Cristo, plenitude que fazia dizer a São Paulo e já citadas palavras: Vivo autemiam non ego, vivit vero in me Christus e que um pobre e desventurado Rimband na ânsia do amor total sonhou sem realizar quando disse: o seu celebre: - Je est una utre – que Paul Claudel – o místico Claudel comentou cristãmente naquela maravilhosa peça Anunce fait à Marie – Qui donc, um nons, autre que nons-même, a dit je? A dit ce je é tramp et plus mûr?
E actuel donc chez nous
Quel qu’un, et depuis quand est il lá?
De quele maniere nous faut il fermer le yeux pour le voir?

Reverendíssimos Senhores: Para bem aprofundarmos estes conceitos, poderíamos estar aqui a vida inteira e não era nada, pois que a nossa eternidade se há-de passar na investigação, no aprofundamento da Caridade.

Porque a maior de todas as virtudes e de todos os dons é a Caridade que permanece para sempre.

Se como escreveu o P. Henri de Lubac no seu livro de la connaissance de Dieu, il faut à l´homme un au-de-lá de l’homme qui ne soit jamais réssovlé, un au-de-lá que rest toujours au de lá. Nós em virtude da nossa natureza humana e mais ainda da nossa participação na natureza Divina, passaremos à eternidade neste movimento de transcendência, em Deus que ficará sempre um além de contrário a eternidade teria fim, logo que Deus deixasse de estar àlém, nem sequer Deus seria Deus.

Precisaríamos, como dizia, e havemos de precisar se Deus quizer, da eternidade sem fim para analisar inesgotavelmente o tema Caridade que é Deus.

Mas a hora já vai adiantada e nós afinal não passamos da primeira parte do esquema: Noção de Caridade.

Se me dão licença antes de irmos adiante, vou resumir tudo o que ficou dito.

Caridade é Deus em si mesmo. Sinais hieróglifos dessa Caridade - as criaturas todos os seres criados – tradução perfeita pessoal e viva dessa Caridade: Cristo-Deus e homem historicamente formado da carne e do sangue de Maria – misticamente formado nas almas.

Podia Cristo nascer mil vezes, se não nascer em ti, estás perdido!




















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