quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA E O CARNAVAL












O CARNAVAL É TUDO O QUE SOMOS SEM QUERERMOS SER!





Findo o Carnaval ainda restavam amontoados de serpentinas e confetes espalhados pelo chão daqueles imensos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora, aguardando que fossem varridos pelos foliões preguiçosamente, depois de uma noite de farra bem vivida. Estávamos já em quarta-feira de cinzas.

O Carnaval na Paróquia de São Vicente de Fora era ali vivido com todo o esplendor e espírito alegre; era um penso rápido, era um analgésico para nos mostrarmos como somos escondidos por detrás de uma fantasia ou de uma máscara; assim, como a realização de macabras brincadeiras que só eram possíveis cobertas pelo estímulo carnavalesco. Conservo uma foto desse velho tempo, estando fantasiado de D.Quixote com ar de sonhador e conquistador, envolvido em uma armadura de aço, acompanhado do meu amigo Vítor Soares no papel do pacato e sério Sancho Pança.



João Paulo Dias  e Vítor Soares nos claustros



Existe um Carnaval na alma de cada um de nós, lamentavelmente para muito o carnaval é todos os dias…

Na Paróquia de São Vicente de Fora decoravam-se os salões de serpentinas e balões. Era nesses salões que o Padre Correia da Cunha, na qualidade de respeitável prior, pelas suas dedicadas atitudes recebia a admiração de todos os paroquianos, ali presentes. Era um prazer vê-lo cheio de vibrações abrir os bailes carnavalescos. Era Carnaval e com o Padre Correia da Cunha referia: «É Carnaval ninguém leva a mal!» Todos precisamos de dias sem julgamentos para fazer coisas, ao contrário do que é normalmente aceite e que raramente se diz.







Ninguém melhor que o Padre Correia da Cunha compreendia, que o Carnaval, para muitos falsos puritanos era um delito. Ele deixava-se atrair pela fúria do Carnaval, pois bem sabia que quando se apagava uma ilusão nascia uma nova esperança…. Sendo assim, o carnaval não era um pecado. Na verdade, era um bem da vida, dos que sabem vive-la. Era um espaço de sonho, de ilusão à disposição de todos aqueles que sabem conduzir os direitos da vida.

O Carnaval é a festa da mentira e da verdade: uns mentem mostrando a verdade, outros mostram a verdade mentindo.




Crianças fantasiadas nas escadarias da igreja



Neste Carnaval de 2018 resta-me recordar aqueles tempos de juventude endiabrada a que o Padre Correia da Cunha abria as portas dos claustros para ali se viverem todas as ilusões da juventude, nos grandes bailes de Carnaval. Estes dias de folia eram aguardados com grade entusiasmo. As músicas estridentes incendiavam aqueles espaços interrompendo aquele triste silêncio. Eram dias libertinos que a gente não se esquece. Não sei dizer se o Carnaval é bem ou mal, mas servia para desabafar os nossos sentimentos que os preconceitos sociais entravavam. O Carnaval fazia parte da nossa vida, sendo um império efémero fazia-nos esquecer as fúrias fatigantes da vida. 



Claustros do Mosteiro



O Carnaval era uma interrupção na serenidade quotidiana das nossas vidas para representarmos dentro da vida real uma vocação que não se realizou, ou um ideal que não se conseguiu atingir. Carnaval é criar um período de fantasia, uma descompressão… pois são apenas 3 dias.

Tudo acabava naquela noite de terça-feira, nascendo em cada um dos folgazões uma nova visão: de penitência e noção de uma nova intimidade de oração.

Novamente teríamos de pensar na realidade da vida!

























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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - PREPARAÇÃO PARA O CASAMENTO XII













«PACTO DE AMOR… COM VISTA À 

PROCRIAÇÃO E EDUCAÇÃO DOS 

FILHOS.»




Nestes cursos de preparação para o matrimónio da autoria do Padre Correia da Cunha, o casamento canónico é tratado como um «pacto de amor», sendo o amor dos cônjuges o ponto crucial da teologia matrimonial.

Era sua preocupação apresentar valores que contribuíssem para a sustentabilidade dessa livre união, ou seja o amor como princípio de força e comunhão conjugal assente na fidelidade. A poliandria e a poligamia não só ferem a dignidade humana como excluem a formação de um lar fecundo e feliz.

Só um amor monogâmico pode valorizar a igualdade dos cônjuges e fazer com que um casamento seja uma verdadeira história de amor.

Estas palestras do Padre Correia da Cunha, de preparação pré nupciais visavam mostrar que o casamento é um processo de amadurecimento afectivo que conduz à procriação.

Para o Padre Correia da Cunha os filhos para serem bem formados, precisavam não só do amor dos pais, mas do amor entre os pais. Neste contexto o amor não só ocupa um lugar central no casamento religioso como se constitui no seu fundamento.






texto de Padre Correia da Cunha

A UNIDADE: Falamos já de duas condições necessárias para a realização do matrimónio, a saber, a Capacidade moral e física, e a liberdade consciente de contrair o vínculo matrimonial com quem se quer desde que ambos os nubentes estejam nas condições de casar validamente

Falemos agora de uma terceira condição, a saber, a Unidade. Unidade quer dizer monogamia, isto é casamento de um só homem com uma só mulher.

Opõem-se à monogamia, ou seja, à unidade matrimonial, a poliandria – estado em que uma mulher tem vários homens – e a poligamia – estado em que um homem tem várias mulheres.

Qualquer destas duas situações é contrária aos fins do casamento, e, portanto, é inadmissível entre gente civilizada e muito mais entre gente cristã.

Com efeito, a poliandria, situação em que vários homens têm relações com uma mulher, trás consigo:
   a)    infecundidade pois normalmente o abuso das relações sexuais torna estéril a mulher. É João de Deus, o grande poeta lírico do século XIX, quem diz que «Deus à prostituta não dá honra da maternidade».

   b)     A prostituição da mulher que normalmente se sente um animal de prazer para os homens com que vive. A entrega do corpo ou corresponde a um amor, isto é, ou se considera como símbolo, sinal de amor das almas, ou é um simples acto animal, indigno do ser humano que é mais do que animal.

   c)      A degradação do homem. Este sente-se simplesmente um macho como os outros que usam a mesma mulher e não um ser superior com quem ela reparte os carinhos e comunga uma vida de família.

   d)    A ruína moral e física dos filhos que por ventura nasçam. Realmente sem se saber qual é o pai, como é que algum dos homens pode tornar o seu corpo a formação da criança?

E dado o abuso das relações sexuais a criança normalmente nascerá com taras e deficiências físicas.


    e)     Além disto tudo, há a própria desgraça física e moral da mãe, como é fácil concluir.

A poligamia, em que um homem tem várias mulheres, embora não tenha tão graves e funestas consequências, tem, no entanto, tremendos horrores a castiga-la.


1º. A destruição da família. Um homem que vive com várias mulheres é um homem sem lar. Não quer dizer que não possa ter filhos de todas; mas onde é que está o ambiente de família, o sentido das responsabilidades paternais, o amor dos filhos para com o pai e até entre si mesmos? São todos filhos do mesmo pai, talvez, mas não se sentem irmãos!

2º. O homem macho. Numa situação destas o homem sente-se unicamente o macho que fecunda, e que normalmente se esgota até sob o ponto de vista físico.

3º. A mulher fêmea. Unicamente fêmea visto que não partilha dos carinhos e amizade conjugais, mas só a que serve de prazeres meramente animalescos. E se alguma é a favorita, logo as outras, que dão ao homem o seu sexo como a própria favorita, sentem a inveja e o ciúme por não terem filhos, com que direito é que os da favorita são filhos queridos e os outros não?


4º. Perde-se o sentido da fraternidade, como é óbvio.








5º. Não pode desenvolver-se a educação dos filhos nem o verdadeiro amor entre o homem e as várias mulheres. Podíamos acrescentar ainda muitas outras razões. Mas cremos que estas são mais que suficientes para que entre gente civilizada se evite tão horrível flagelo. De resto, a poligamia presta-se a que as mulheres reduzidas a simples fêmeas sejam facilmente desprezadas logo que se tornem pouco apetitosas, e, por consequência, se atirem para a prostituição, até por ciúme.

Por tudo isto, o casamento tem de ser monogâmico, isto é, de um só com uma só. União total para toda a vida é a única que estabelece uma solidariedade, uma comunhão perfeita entre ambos e cria as condições de fidelidade fundamental entre o homem e a mulher, criaturas humanas, criadas por Deus com iguais direitos e deveres.

Forma a entidade moral, a família, em vista da procriação e educação dos filhos.

União moral: só a monogamia favorece tal união entre os esposos:

- União de duas vidas e de duas almas, para além da satisfação das paixões carnais.

União de igualdade: só a monogamia concede dignidade à mulher igual ao homem.

Unidade familiar: só a monogamia permite a educação séria dos filhos pelo pai e pela mãe, unidos para essa grande obra da formação de homens.

Isto é tão claro que dispensa mais comentários.


















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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - PREPARAÇÃO PARA O CASAMENTO XI













UM ACTO DE LIBERDADE



No início de 2018, damos continuidade ao curso de preparação para o matrimónio da autoria do Padre Correia da Cunha. Estes textos são excelentes auxiliares de conselhos e observações sobre esse contracto que, é como todos os contractos um acto essencialmente livre e incoercível; assenta no consentimento  livre,  autónomo e  independente que levava o Padre Correia da Cunha a lembrar tantas vezes: “- Só casa quem quer quando quer e como quem quer.”

Mas esta liberdade absoluta em que se baseia o contracto de casamento tem de ser entendida em termos talentosos – o casamento é um contracto inteiramente livre quanto à sua celebração, mas não devemos esquecer que o sacramento do matrimónio origina uma instituição, que se rege pelas leis naturais que o homem não pode modificar.

Dizia o Padre Correia da Cunha que era da maior importância os nubentes conhecerem e aprofundarem a doutrina da Igreja acerca do matrimónio como fonte de graça. O sacramento é perene cujos efeitos se prolongam por toda a vida dos cônjuges.



Importa que todos os cristãos que se unirem pelo sacramento do matrimónio saibam aproveitar deste inapreciável tesouro, fazendo da sua vida marital a sua via de santificação. Só assim chegarão a viver, em toda a sua beleza e dignidade, o sublime ideal do grande sacramento que é o matrimónio cristão.





Texto da autoria de Padre Correia da Cunha


LIBERDADE – A segunda condição de validade no matrimónio é o mútuo consentimento. Tal é a doutrina do código de Direito Canónico (c.1081). Tal é também a doutrina do direito natural: - O consentimento deve ser livre e não há poder algum humano que possa suprir essa liberdade de consentimento.

Não é de estranhar, porém, que em antigas civilizações e, ainda hoje, em povos não cristianizados, se dispense facilmente o consentimento livre da mulher e o casamento se trate entre famílias como se fosse um negócio qualquer. Isto só tem explicação no triste facto de se esquecerem os direitos humanos onde não se aceita a lei de Cristo. É certo que só a pouco e pouco a Igreja Católica conseguiu implantar esta doutrina.


Levou séculos para poder impô-la, baseando-se na igualdade de direitos tanto do homem como da mulher.

Mas também se deu o mesmo a respeito da escravatura… que só os povos bárbaros ainda hoje têm. Graças a Deus, entre nós já é doutrina aceite esta de que a mulher é livre tal qual o homem.

Mas é bom não esquecer que, se ambos são livres, nem por isso devem por de parte os conselhos e avisos de pessoas mais experimentadas e amigas, como os pais e os párocos respectivos. É que há muitas coisas a considerar no casamento: - em primeiro lugar o amor, a simpatia mútua, a decisão de abraçarem uma vida em comum com todos os sacrifícios que essa vida exige, sendo um do outro, sem do os dois dos filhos e sendo todos de Deus.



Depois: - a semelhança de feitio e génio entre os dois; a semelhança de condições sociais; a semelhança de educação, etc…





Ora é fácil que muitas vezes os namorados se preocupem somente com as questões sentimentais, e se esqueçam de averiguar se ambos se compreendem e entendem quanto ao resto. Um sapateiro embora honrado, que case com uma princesa, é claro que fará a vida negra à mulher, assim como ela o há-de humilhar constantemente pela sua maneira de falar, de vestir e até por ele passar a viver à custa dela e não do seu trabalho.

É claro que tal lar não pode ser feliz. Por isso mesmo antes que cases olha o que fazes!

Escuta ta os conselhos e avisos dos teus melhores amigos e não te deixes guiar só pela voz dos teus sentimentos amorosos que, às vezes, são traiçoeiros como Judas. Às vezes são paixões e não amor… ela é bonita, jeitosa… e não há outra razão. Pergunta também : Ela  é bem formada religiosa e moralmente? Ela tem qualidades de trabalho? Não basta que ela diga que por tio é capaz de tudo. Ela sabe lavar a roupa, esfregar a casa etc…


Nesse caso, se amanhã as necessidades da vida a obrigarem a isso, ela será capaz de o fazer.
De modo que devemos assentar nisto:


Para o casamento é necessário o consentimento livre, e é de toda a conveniência o conselho e avisos dos pais, amigos e do pároco ou confessor.

Pode pôr-se a questão de um nubente que, coagido, aceita o casamento com a pessoa que não ama.
Como resolver-se o caso? E se depois de algum tempo começa a gostar dessa pessoa?

Pense cada qual neste assunto e diga de sua justiça…
















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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

2017 - ANO CENTENÁRIO NASCIMENTO PADRE CORREIA DA CUNHA











Hoje, já quase no final de 2017, vimos trazer-lhe, as nossas despedidas… muito brevemente serás expulso, mas continuarás a ser recordado nos nossos pensamentos, pelas grandes homenagens prestadas ao Padre Correia da Cunha, nos dias 2 de Abril e 24 de Setembro, em que assinalamos o 40º aniversário da sua morte (1977) e o centenário do seu nascimento na freguesia de Arroios no ano de 1917.







A escultura da autoria do José Carlos Coelho colocada junto à entrada do salão paroquial, discreta, disfarçada só visível pela claridade penetrada através do portão de ferro é uma coluna, simbolizando a força da sua heróica sensibilidade, o incansável pregador de princípios, que ainda hoje são pilares dos que lhes seguem os seus traços. O Corvo Vicente é o símbolo da sabedoria espargindo sobre a ignorância...


Estou convicto que esta peça escultórica será testemunha das muitas sinceras emoções que ainda agitam os nossos corações, na sublimação moral e espiritual pela herança que do mestre de vida recebemos.








O Padre Correia da Cunha, chefe dos capelães da Armada Portuguesa, como referi nasceu no dia 24 de Setembro de 1917 na freguesia de Arroios. Entre outras funções que exerceu destacam-se a de fâmulo do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel II Gonçalves Cerejeira de cerimoniário adjunto da Sé Patriarcal e Capelão da Marinha de Guerra. No exercício desta última missão desenvolveu acção notável. Foi fundador da Associação dos Marinheiros Católicos Portugueses e tomou parte em várias viagens de instrução de cadetes e marinheiros a bordo do Navio Escola «SAGRES». Foi igualmente um tradutor erudito e competente de várias obras de carácter religioso. O capelão Correia da Cunha também tomou parte nas Conferências Internacionais de Capelães Navais da NATO.


Na Radio Renascença fez palestras no programa «Voz do Sino» e desenvolveu grande actividade literária.





Foi prior durante cinco anos da Basílica dos Mártires, onde 
desenvolveu extraordinária actividade, quer na participação activa dos fiéis na liturgia quer na restauração e reintegração artística do majestoso templo na sua traça primitiva.

A convite do Professor Mueller da cadeira de órgão do Conservatório Nacional e anuência de director do mesmo, foi professor de liturgia dos alunos dessa cadeira, durante cinco anos; e no Instituto de S. Pedro de Alcântara, realizou conferências semanais.


Também como escritor e poeta se distinguiu. Foi director do semanário «Voz da Verdade» de 1939/40.

Eis algumas das suas obras: Pascha Nostrum, tradução da liturgia pascal, penetrada de unção e poesia; liturgia da Vigília Pascal e tradução «O Dilúvio de Saint Sens» para a Sociedade Coral de Lisboa, tendo certo crítico afirmado: ‘ser tão boa ou mais bela que o original’.


Para a mesma Sociedade traduziu vários poemas de Weinachflileder, de Mozart. E por ocasião das bodas episcopais do Senhor Cardeal Patriarca, e em homenagem a Sua Eminencia; escreveu um notável artigo na «Defesa Nacional» intitulado «Defensor Civilatis».





Fez ainda várias conferencias de muitíssimo interesse entre as quais uma sobre São Vicente – Padroeiro de Lisboa, na sede dos Amigos de Lisboa, a qual foi publicada em separata; a pedido da editora Suiça Benziger,  o Missal Romano ( edição destinada ao Brasil); para a mesma, traduziu ainda a «Imitação de Cristo» além de vários livros de piedade para crianças; escreveu vários cânticos religiosos de profunda interioridade, um Auto de Natal que com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa, foi representado nas escadarias da Igreja de São Vicente de Fora.




Realizou várias viagens de estudo em diversos países da Europa e Estados Unidos, tendo em vista sobretudo os assuntos da Pastoral Litúrgica.





Foi nomeado para pároco de São Vicente de Fora, no ano de 1960 enchendo de justificado orgulho os seus paroquianos. Foi um digno sucessor do venerando Monsenhor Francisco Esteves, que durante mais de meio século, com zelo inexcedível paroquiou aquela freguesia.

No ano de 1961 foi nomeado capelão das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército e da Messe dos Oficiais de Santa Clara. No ano de 1972 pelos relevantes serviços prestados o Presidente da Republica condecorou-o  de comendador da Ordem de Cristo.

Na paróquia de São Vicente de Fora desenvolveu uma notáveis actividades  pastorais, que assentavam na educação cristã: uma catequese renovada para crianças,  escola para pais e cursos de preparação para o casamento. Uma actualizada caridade, activando-se as Conferencias de São Vicente de Paulo e uma Liturgia dinâmica com a participação de jovens acólitos nas celebrações, assim como a formação musical e coral para actualização do coro paroquial…

O Padre Correia da Cunha como referia, não vinha para dormir na forma, mas para labutar no que estivesse ao seu alcance, contribuindo para o restauro e conservação daquele imenso monstro adormecido (Mosteiro de São Vicente). Como era sabido o templo e o mosteiro encontravam-se votados a um abandono total. Era imperioso cuidar-se das coberturas com colocação de telhas novas e ao concerto de todas as janelas que apresentavam as vidraças quebradas. 

A água da chuva entrava a jorros e infiltrava-se na estrutura do edifício e por todos aqueles longos corredores, os tectos ameaçavam ruína iminente, tudo isto acontece após a deslocação do Liceu Nacional Gil Vicente para as suas novas instalações na cerca do Mosteiro.






Todo o interior do majestoso templo renascentista era de grande pobreza, necessitava de uma lufada de ar fresco na ornamentação: sobriedade, discrição, simplicidade e equilíbrio. Tudo o que está no templo e em redor dos altares devia ser vivo e não morto. Também era necessário proporcionar conforto aos participantes das celebrações de culto, com a colocação de novos bancos corridos, em substituição da meia dúzia de bancos grosseiros com cheiro a velho, uma instalação sonora, uma instalação eléctrica e uma iluminação condigna para tão riquíssimo património artístico.

As verbas no Ministério das Obras Publicas eram escassas. A sua obstinada actuação junto das autoridades constituídas, inclusive com entrevistas com o Presidente do Conselho, Prof. Oliveira Salazar, com o objectivo de conseguir que a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais garantisse a realização destes imperativos benefícios, por forma a salvaguardar este tão importante património nacional.

Não restam dúvidas que o Padre Correia da Cunha assumia com inquebrantável afinco na defesa deste tesouro que poderia perder-se irremediavelmente, sem as urgentes intervenções (coberturas e reparação das janelas).

Na sua presença nos mais diversos actos oficiais, aproveitava sempre, para falar sobre este magnífico monumento e trouxe muitos dos seus contactos pessoais a visitá-lo. 

A pouco e pouco, nos gavetões da preciosíssima sacristia surgiam novos paramentos, novas alfaias, amitos, alvas, cíngulos, toalhas corporais de linho, casulas, capas de asperges e restaurados todos os cálices, turíbulos, píxides de prata do séc. XVII e XVIII…  Expandiu a visita museológica a grande parte das salas dos claustros, com apresentação de peças de arte sacra da sua colecção, quando antes apenas havia acesso ao panteão real.

Para o Padre Correia da Cunha era necessária uma evangelização renovada assim como uma liturgia mais dinâmica. Uma maior participação dos leigos na vida da Igreja,fundando o Conselho Paroquial que se reunia semanalmente para planear as actividades pastorais e económicas. Assim surgiram imensos acólitos e meninos do coro com as suas túnicas brancas e cíngulos vermelhos em honra do mártir São Vicente. Gerou aulas de catequese com catequistas formados e também catequese para adultos. Fundador de vários Grupo de Jovens entre eles o OBJECTIVO em 31 de Outubro de 1971. Foram numerosos os paroquianos que se comprometeram na renovação das Conferencias de São Vicente de Paulo no intuito de servirem os irmãos mais necessitados pelo dom da caridade.

Muitos dias se gastaram a consertar e conservar o imenso arquivo fotográfico herdado do seu antecessor, notável amante da fotografia. Este espólio encontrava-se disperso e tresandar de bafio, era considerado pelo Padre Correia da Cunha de um valiosíssimo interesse histórico para a Paróquia e para a Igreja Diocesana.

Escrevo estas singelas palavras, em genuflexão à memória daquele a quem prestamos uma sentida homenagem na celebração do centenário do seu nascimento, sentindo-me um inculto ao tentar fazer aqui esta pequena biografia. Foi uma personalidade grandiosa e complexa que tanto orgulha a Armada, a Paróquia de São Vicente de Fora, os Amigos de Lisboa, as Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento e os Lions.

Em cada pedacinho de São Vicente de Fora e Alfama, em cada retalho das nossas palavras há um pensamento do Padre Correia da Cunha que continua a moldar as nossas ideias.

Ele era um génio naquela época e isso ainda é  hoje reconhecido pelos seus muitos amigos.





Celebramos com dignidade, o centenário do nascimento desse grande e inesquecível mestre de Vida, Correia da Cunha, padre - marinheiro- poeta, titulo da obra apresentada em 2015 da autoria de João Paulo Dias. Foi um homem predestinado a amar o próximo. 

Uma efeméride gloriosa que contou com a mais prestigiada figura da Armada Portuguesa o Senhor Almirante Silva Ribeiro, que quis com a sua presença prestar o tributo de honra e respeito da Marinha Portuguesa ao insigne capelão.

A cidade de LISBOA, que contou com a presença do Arq. Jorge Ramos de Carvalho em representação da Senhora Vereador da Cultura, Drª Catarina Vaz Pinto descerrou uma placa evocativa, delineada pela Arqtª Ana Silva Dias, simbolizando o grande amor do Padre Correia da Cunha à cidade do seu coração. 

Erudito profundo encarnou em si o génio da verdade e a verdade da justiça, pois sempre soube tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, era para ele desigualdade  flagrante e não igualdade real. Que grande espírito! Foi pois com justa admiração que o Reverendíssimo Sr. Bispo D. Joaquim Mendes e o Senhor Secretário de Estado da Defesa Nacional tomaram parte religiosamente nesta homenagem e se curvaram perante a sua obra, que se considera viva após 40 anos da sua morte. 
















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sábado, 23 de dezembro de 2017

NATAL 2017














“ NATAL É A FESTA DA RECONCILIAÇÃO DE DEUS COM A HUMANIDADE!” PCC




Nestas festas de tão íntima doçura, de tão funda alegria, a Comissão do Nascimento do Padre Correia da Cunha, deseja a todos os que participaram nas cerimónias do Centenário um Bom e Santo Natal cheio de felicidade profunda na luz do Menino.

Felicidade esta que é o fundamento de toda a nossa vida cristã, como o Anjo o anunciou aos pastores nessa noite de Natal. «Eis que vos anuncio uma grande alegria: Nasceu um Salvador».
A estrela brilhou para anunciar a Boa Nova a Lei do Amor a vencer o ódio, da Paz a vencer a guerra.

Para nós já não há lugar para tristezas, nem receios nem desesperos… Temos um Salvador, um Amigo, um Protector todo poderoso…

Por Ele tudo podemos e tudo nos será dado…

Alarguemos o coração ao infinito e meditemos nestes poemas da autoria do Padre Correia da Cunha que hoje aqui publico:

UM SONHO DOURADO

Deitado nas palhinhas docemente
Dorme Jesus. Nossa Senhora ao pé
Da manjedoura reza. E S. José
Contempla este quadro sorridente.

23.DEZ.1936

Criancinha, geme e chora
Nas palhinhas deitadinho,
E a Virgem Mãe o adora
Com todo o amor e carinho
E beija o pé pequenino
Do seu Deus feito menino.

A descansar um pouco da fadiga
Cansada por tão áspera jornada,
Junto do curral, ali, ao pé da estrada,
Ficou Maria, como quem mendiga.
José partira em busca de pousada
Por entre a sua parentela antiga
Triste voltou : - ó minha santa amiga.
Diz à Senhora, corri tudo nada!

E já bateste, além, aquela porta?
Bati!
E então?
-Outra resposta torta!...
Diz São José, com lágrimas na voz.
Chegava a hora de Ela dar à luz…
E ali, num curral, nasceu Jesus:
-Deus feito homem por amor de nós.

José Correia da Cunha – Natal 1941

Mistério profundo,
Milagre d’amor:
Fez-se luz do mundo
A luz do Senhor;

Verbo Divino
Fez-se nossa luz:
-Nasceu qual menino,
Chamou-se Jesus!

Deus, na voz dos homens,
Em seu timbre e cor,
Conjugou na terra
Seu verbo d’amor,

A todos ensina
A lição dos Céus,
A bela doutrina
Do amor de Deus

Esta luz Divina
D’eterno clarão
Incendeia o mundo
Luz na escuridão

E quem dá guarida
Ao Verbo da Luz
Em si tem a vida
Do próprio Jesus.

Natal de 1954


Natal 2017 . Aos pés do Menino Jesus vamos levar as nossas preces impregnadas de Amor para nos juntarmos aos anjos cantando: Glória a Deus no Céu e paz na terra aos homens de boa vontade!


















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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

PE. CORREIA DA CUNHA - PREPARAÇÃO PARA O CASAMENTO X











A VIDA EM COMUM É UMA ENTREGA

 TOTAL!


O Padre Correia da Cunha possuía uma grande experiência com jovens e procurava mostra-lhes os bons princípios morais para um namoro e noivado que contribuíssem para a Glória de Deus e para a formação de um lar cristão solido e alegre. É no namoro que se começa a escrever uma história de amor que ambos querem edificar ao longo da vida e que crescerá naturalmente através do amor e das alianças que jurarão ante Deus a Comunidade Cristã.


O relacionamento no namoro deve exaltar uma caminhada que deve ser vivida, num compromisso sério pleno de responsabilidade. Lembrava o Padre Correia da Cunha que uma vida não pode ser vivida de improvisos. Antes pelo contrário deve ser planeada e só assim haverá um noivado suficientemente maduro e verdadeiro. Com a ajuda de ambas as famílias dos noivos, estes devem ser capazes de aprender um com o outro no respeito pela dignidade de cada um. Noivado é tempo de preparação e amadurecimento. Deve servir para se examinarem mutuamente de forma a enfrentar e ultrapassar os obstáculos e as dificuldades da vida conjugal; para depois não haver surpresas ou ser tarde de mais…


Na foto seguinte uma dedicatória da autoria do Padre Correia da Cunha. É um texto bem elaborado com letra bem legível, datada de 22 de Abril do ano de 1961 para um casal amigo que nesse dia contraíram o Sacramento do Matrimónio. Que desfrutem da felicidade tão sonhada recebida na bênção daquele dia.







Texto do Padre Correia da Cunha

A respeito da indissolubilidade do matrimónio ficou, pois, assente que, entre católicos, ela é uma das características fundamentais do casamento. Uma vez unidos pelos laços do matrimónio, os esposos jamais poderão separar-se para contrair outros laços matrimoniais. Homem e mulher ligam-se para construir uma família, não para fazerem experiências sexuais.

Vem a propósito expor uma dificuldade que se apresenta com frequência.

Dizem muito (e alguns até cristãos, mas mal formados) que pode acontecer o caso de os esposos algum tempo após o casamento verificarem a incompatibilidade da vida em comum. Isto é; pode dar-se o caso de um desentendimento grave, provocado pela oposição de feitios e até por falta grave quer da mulher quer do marido.

A isto responderemos que:

a)      O namoro e o noivado se não inventaram para passatempo inútil ou mesmo pecaminoso, mas para que os namorados preparem o seu futuro, procurando conhecer-se mutuamente, analisando-se os feitios, génios, caracteres e suas qualidades e defeitos. Não deve passar-se tão precioso tempo em cinemas, divertimentos ou coisas piores, mas num estudo sério das pessoas, suas tendências, preocupações e gostos. Durante esse tempo, devem estudar-se também os problemas económicos, morais e religioso da família, etc…

Se houver esta preocupação, é claro que depois o casamento não será uma caixinha de surpresas mais ou menos agradáveis… Antes que cases, olha o que fazes, diz a sabedoria do povo.



b)      Quando, porém, essa incompatibilidade surgisse, ou algum acto criminoso a provocasse, nem mesmo assim o divórcio seria admissível não só pelo que ficou dito em anteriores capítulos, mas também porque nunca se pode garantir que a segunda ou terceira experiência fosse mais feliz do que a primeira. Pois, na verdade, quando se casou, o Senhor Fulano não esperava senão felicidade e alegria. Apareceu-lhe a Cruz. Isto será motivo para experimentar outra? E quem garante que a segunda não é pior que a primeira?

       Onde é que isto ia parar!!!

Por outro lado, o divórcio, nos países em que existe contribui

a)      Para a inconsciência com que se procede à realização do grande acto do casamento. Na verdade, se os noivos estão convencidos de que se não se deram bem, podem cada qual ir para seu lado, para quê pensar a sério em vencer as dificuldades da vida matrimonial?
    b)      Para a ruína da família. Quando o divórcio é admitido pela lei, com facilidade, perante os espinhos da vida, se arranjam motivos de incompatibilidade e se desmancham os lares.

     c)       E, por consequência, para ruina da sociedade, visto que a família é a sua base.

Se não fosse massada grande para nós, seria interessante analisarmos estatísticas. Mas fiquemos por aqui, que já chega. As verdades devem ser aceites pela inteligência; os números só servem para confirmar o que aquela já aprovou.







De toda esta breve exposição sobre o casamento, à luz de uma sã filosofia natural e da doutrina católica, devemos tirar algumas consequências sérias e profundas.

Umas a respeito da preparação do casamento.

Outra acerca da vida matrimonial.

1º - O casamento prepara-se pelo namoro e pelo noivado.

Sem se saber bem porquê, certo dia nasce no coração de dois jovens, rapaz e rapariga, um sentimento indefinível de simpatia mútua. Procuram eles vir à fala, primeiro a pretexto das coisas mais indiferentes, depois tratando assuntos íntimos. É o namoro. Procuremos que desde logo a coisa seja a sério. Que os pais da rapariga, bem como os do rapaz , tenham conhecimento do que se passa. Averiguemos da posição social, da situação económica dum e d’outro. Esclareçam-se intenções.

Estudem-se todos os aspectos da questão. E faça-se tudo isto com delicadeza, amizade, fraqueza e com o conhecimento de quem os possa aconselhar, como sejam, os pais, os amigos íntimos e, em especial, o sacerdote confessor com quem se abre a alma.

2º Durante a vida de casados, não supor que a lua-de-mel é eterna. O entusiasmo da paixão pode passar depressa, contanto que fique o perfume do amor verdadeiro, pronto a sacrificar-se tanto mas grandes como nas pequeninas coisas.






A vida de piedade, a formação moral e espiritual. A comunhão de almas e de interesses, as confidências, numa palavra a vida em comum, á a garantia da felicidade.

E não se julgue que a vida em comum se pode fazer sem toda aquela comunhão de almas de que se acaba de falar. Não!

Não é vida em comum só quando se unem corpos numa cama ou à mesa, e todas as preocupações espirituais, morais e até materiais se guardam egoisticamente. A vida em comum é uma entrega total!


Para isso, só uma vida de oração e sacrifício pode dar forças bastantes.






















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